Trecho do livro "Todo dia é um dia especial" de Max Lucado.

Mais um trecho retirado do livro "Todo dia é um dia especial" do autor Max Lucado.

Capitulo 8.

Fé para os dias de medo.

— VOCÊ ACHA QUE ELE PODE? VOCÊ ACHA QUE ELE SE IMPORTA? Você acha que ele virá?
Essas perguntas emergem do coração da mãe. O medo molda suas palavras e obscurece seu rosto.
O marido dessa mulher pára à porta da casa e olha para trás, para os olhos cansados e amedrontados de sua esposa e, a seguir, por cima dos ombros desta, olha para a figura da filha doente deitada sobre a cama humilde. A garota treme de febre. A mãe treme de medo. O pai, em desespero, encolhe os ombros e responde:
— Eu não sei o que ele vai fazer, mas não sei mais o que eu posso
fazer.
As pessoas no lado de fora da casa abrem espaço para o pai passar, o que também fariam em qualquer outro dia. Ele é o líder da cidade. Mas, nesse dia, eles o fazem porque a filha dele está morrendo.
— Deus o abençoe, Jairo! — oferece uma pessoa. Mas Jairo não pára. Ele escuta apenas as perguntas da mulher dele.
— Você acha que ele pode? Você acha que ele se importa? Você acha que ele virá?
Jairo anda rapidamente pelo caminho através da vila de pescadores de Cafarnaum. O número de pessoas que o seguem aumenta a cada passo. Eles sabem aonde Jairo vai. Eles sabem quem ele procura. Jairo vai à praia procurar Jesus. Quando eles se aproximam da beira da água, eles avistam o Mestre, rodeado por uma multidão. Um cidadão se adianta para abrir uma trilha, anunciando a presença do soberano da sinagoga. Os aldeões aquiescem. Uma multidão do tamanho do Mar Vermelho se afasta, abrindo uma passagem ladeada de pessoas. Jairo não perde tempo. "Vendo Jesus, prostrou-se aos seus pés e lhe implorou insistentemente: 'Minha filhinha está morrendo! Vem, por favor, e impõe as mãos sobre ela, para que seja curada e que viva'. Jesus foi com ele. Uma grande multidão o seguia e o comprimia" (Marcos 5:22-24).
A boa-vontade instantânea de Jesus deixa Jairo com os olhos marejados. Pela primeira vez em muito tempo, um raio de sol aquece a alma desse pai. Ele quase corre para levar Jesus ao caminho que chega até sua casa. Jairo ousa acreditar que está a um instante de um milagre.
Sim, Jesus pode ajudar. Sim, Jesus se importa. Sim, Jesus vem.
As pessoas saem da frente e se juntam a eles. Servos se adiantam para avisar a mulher de Jairo. Mas, depois, Jesus, tão rapidamente quanto começou, pára. Jairo, sem se dar conta, dá mais doze passos até perceber que está andando sozinho. As pessoas pararam quando Jesus parou. E todo mundo tenta entender a pergunta de Jesus: "Quem tocou em meu manto" (Marcos 5:30). A frase alvoroça a todos. As pessoas se viram umas para as outras; os discípulos respondem a Cristo. Alguém dá um passo para trás de modo que outro possa vir à frente.
Jairo não consegue ver quem era essa pessoa. E, muito francamente, não lhe importa quem seja ela. Segundos preciosos estavam passando. Sua preciosa filha agonizava. Alguns instantes atrás, ele liderava o Desfile da Esperança. Agora, ele assiste do lado de fora e vê sua frágil fé se desmoronar. Ele olha para sua casa e para Cristo, e se pergunta: Será que ele pode? Será que ele se importa? Será que ele virá?
Nós conhecemos as perguntas de Jairo, porque já sentimos esse mesmo medo. A Cafarnaum dele é nosso hospital, nosso tribunal ou nossa estrada solitária. A filha dele à beira da morte c nosso casamento, nossa carreira difícil ou nosso amigo prestes a morrer. Jairo não é o último a pedir um milagre a Jesus.
Nós já fizemos o mesmo. Com a crença pesando somente uma pena
a mais do que a descrença, nós nos jogamos aos pés de Jesus e imploramos por um milagre. Ele responde com esperança. Sua resposta traz luz. A nuvem se dissipa. O sol brilha... por um tempo.
Mas Jesus, no meio do caminho para o milagre, pára. A doença volta, o coração endurece, a fábrica se fecha, o cheque volta, a crítica volta e nos encontramos com Jairo, bem ali, olhando de fora; nessa posição, sentimo-nos como um item sem importância na lista dos afazeres de Deus e perguntamo-nos se Jesus ainda se lembra de nossa aflição. Questionamo-nos se ele pode, se ele se importa ou se ele vem.
Jairo sente um toque em seu ombro. Ele se vira e vê a face pálida de um servo triste, que lhe diz: "Sua filha morreu. Não incomode mais o Mestre" (Lucas 8:49).
Já tive de desempenhar, em algumas ocasiões, o papel desse servo. Transmitir notícias de morte. Já informei a um pai sobre a morte de seu filho adolescente, a meus irmãos sobre a morte de nosso pai, a mais de uma criança sobre a morte de um pai.
Cada anúncio tem silêncio como resposta. Pode logo ser seguido de gritos ou desmaios, mas a primeira resposta é um silêncio envolto pela perplexidade do choque. Como se nenhum coração pudesse receber aquelas palavras e nenhuma palavra pudesse expressar o coração. Ninguém sabe o que dizer quando recebe a notícia da morte de alguém querido.
Não foi um silêncio desse tipo que Jesus interrompeu com estas palavras: "Não tenha medo; tão-somente creia" (Marcos 5:36)?
Crer? Jairo deve ter pensado. Crer em quê? Como? Em quem? Minha filha está morta. Minha mulher está histérica. Bem, e você, Jesus, chegou tarde. Se você tivesse vindo quando pedi, seguido quando o guiei... Por que você deixou minha menina morrer?
Jairo não tinha como saber a resposta. Mas nós temos. Por que Jesus deixou a menina morrer? Para que, dois mil anos depois, batalhadores ouvissem a resposta de Jesus à tragédia humana. A todos que já estiveram onde Jairo esteve, Jesus diz: "Não tenha medo; tão-somente creia."
Creia que ele pode. Creia que ele tem o poder de ajudar. Note que a
história apresenta uma reviravolta. Até esse ponto, Jesus seguiu Jairo; agora ele assume o controle. Ele comanda a cena. Ele se prepara para a batalha: "E não deixou ninguém segui-lo, senão Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago" (Marcos 5:37).
Jesus diz aos que estão de luto para ficarem quietos. "Então entrou e lhes disse: 'Por que todo este alvoroço e lamento? A criança não está morta, mas dorme" (Marcos 5:39).
Quando zombam dele, "ordenou que eles saíssem" (Marcos 5:40). A versão em português suaviza a ação. No original grego, o verbo utilizado descreve a ação com toda franqueza; ekhallo quer dizer livrar-se ou jogar fora. Jesus, o que limpa o templo e expulsa demônios, arregaça as mangas. Ele é o xerife em um saloon barulhento colocando uma mão em um colarinho branco e a outra no cinto, jogando na rua os desordeiros que espalham dúvida.
Ele, a seguir, vira sua atenção para o corpo da garota. Ele tem a confiança de Einstein somando dois e dois, a de Beethoven tocando o Bife, a do golfista Ben Hogan se aproximando de um buraco a dois centímetros. Jesus pode chamar os mortos à vida? Claro que pode.
Mas ele se importa? Ele pode ser poderoso e compassivo? Ter músculos e misericórdia? O apuro de uma menina de doze anos no meio do nada aparece na tela do radar do céu?
Na história, um momento antes revela a resposta. E sutil. Pode ter passado despercebida. "Não fazendo caso do que eles disseram, Jesus disse ao dirigente da sinagoga: 'Não tenha medo; tão-somente creia'" (Marcos 5:36).
Jesus ouviu as palavras do servo. Ninguém tinha de avisá-lo da morte da menina. Embora separado de Jairo, ocupado com o caso da mulher, cercado de aldeões que o solicitavam, Jesus nunca tirou o ouvido do pai da menina. Jesus estava ouvindo o tempo todo. Ele ouviu. Ele se importou. Ele se importou o suficiente para falar ao medo de Jairo, para ir à casa de Jairo.
Ele [...] tomou consigo o pai e a mãe da criança e os discípulos que
estavam com ele, e entrou onde se encontrava a criança. Tomou-a pela mão e lhe disse: "Talita cumi", que significa "menina, eu lhe ordeno, levante-se!" Imediatamente a menina, que tinha doze anos de idade, levantou-se e começou a andar. Isso os deixou atônitos (Marcos 5:40-42).
Um pronunciamento do meio do caminho teria funcionado. Uma declaração de longe teria acordado o coração da menina. Mas Jesus queria fazer mais do que levantar os mortos. Queria mostrar que não apenas pode e se importa, mas que vem.
Às casas dos Jairo. Ao mundo de seus filhos. Ele vem àqueles que são tão pequenos quanto o bebê de Maria e tão pobres quanto o filho de um carpinteiro. Ele vem àqueles tão jovens quanto um adolescente nazareno e tão esquecidos quanto um garoto despercebido em um vilarejo obscuro. Ele vem àqueles tão ocupados quanto o filho mais velho de uma família grande, àqueles tão estressados quanto o líder de discípulos inquietos, àqueles tão cansados quanto aquele que não tem onde repousar a cabeça.
Ele vem para todos. Ele fala para todos. Ele falou a mim esta semana. O livro que você está lendo voltou dos editores com uma hemorragia de tinta vermelha. Um tatuador deixa menos marcas do que eles deixaram. Por dois dias, tive pavor da quantidade de trabalho que tinha pela frente. Considerei seriamente arquivar o projeto. Foi quando me dei conta da ironia da minha atitude lamentável: escrever um livro sobre bons dias estava deixando o meu sem graça.
Denalyn sugeriu que eu desse uma pausa e a acompanhasse ao mercado. (Quando a idéia de empurrar um carrinho de mercado pelo departamento de carnes lhe parece boa, alguma coisa está errada com você.) Um membro de nossa congregação me avistou. Após algumas amenidades, ele perguntou:
— Sabe aquelas lições que você ensinou sobre dar uma chance a cada dia?
Mais do que você pensa.
— Sei.
— Elas me ajudaram muito. — Fico feliz em saber.
— Não, Max — disse ele, em um tom que apontava para o fato de que realmente falava sério — estou dizendo que elas realmente me ajudaram.
E lá se vai a idéia de arquivar os manuscritos. Algumas vezes, só precisamos de uma palavra, não é mesmo? E Deus ainda a dá. Aos oprimidos. Aos abatidos. Aos Jairos. A nós. Ele ainda insiste:
— Não tenha medo; tão-somente creia.
Acredite que ele pode, acredite que ele se importa, acredite que ele virá. E como nós precisamos acreditar. O medo rouba tanta paz dos nossos dias.
Quando navegantes antigos desenhavam mapas dos oceanos, eles revelavam seus medos. Nas vastas águas inexploradas, cartógrafos escreviam palavras como estas:
"Aqui há dragões."
"Aqui há demônios."
"Aqui há sereias."
Se fosse desenhado um mapa do seu mundo, nós encontraríamos frases assim? Nas águas desconhecidas da idade adulta: "Aqui há dragões." Próximo ao mar do ninho vazio: "Aqui há demônios." Perto das mais longínquas latitudes da morte e eternidade, leremos: "Aqui há sereias?"
Se esse for o caso, conforte-se com o exemplo de Sir John Franklin. Ele era um fuzileiro sênior nos dias do rei Henrique V. Águas distantes eram um mistério para ele, assim como o eram para outros navegantes. Diferentemente de seus colegas, no entanto, Sir John Franklin era um homem de fé. Os mapas que adquiria tinham o selo da confiança. Neles ele riscou as frases: "Aqui há dragões"; "Aqui há demônios"; e "Aqui há sereias". No lugar delas ele escreveu a frase "Aqui está Deus".18
Lembre-se sempre disto. Você nunca irá aonde Deus não está. Pode ser transferido, alistado, posto em serviço, removido ou hospitalizado, mas — grave esta verdade em seu coração — você nunca pode ir aonde Deus não está. "E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos" (Mateus 28:20).
— Não tenha medo; tão-somente creia.

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